Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

"Ver-te assim abandonado"

Este texto, publicado há uns anos atrás, é dedicado às nossas cidades históricas, Lisboa e Porto, que desde há uns  anos para cá têm vindo a perder muita população, os centros estão a ficar desertos (sobretudo à noite). Mudança dos tempos...

Aqui fica:

 

"

Ver-te assim abandonado

 

Até há algum tempo atrás, as cidades atraiam população, devido às condições de vida que ofereciam. Actualmente, porém, o crescimento das cidades coloca problemas de sustentabilidade em termos de qualidade de vida. Para ter qualidade de vida temos cada vez mais em atenção o ambiente, a segurança, a afectividade. O que vemos então nas grandes cidades portuguesas, Lisboa e Porto?

            Um dos problemas que as afecta é o seu envelhecimento. Grande parte dos prédios do centro das cidades são arrendados. Só que o sistema de arrendamento manteve durante muitos anos rendas fixas, não compensando aos arrendatários um investimento na recuperação das habitações. Como consequência, vemos edifícios muito  degradados nas áreas mais antigas da cidade. Por vezes também os proprietários são pessoas idosas, de fracos rendimentos e pouca motivação para proceder a obras de beneficiação, acabando as habitações por de degradarem.  Quando não se procede imediatamente à demolição dos edifícios após o abandono dos mesmos pelos idosos que vão morrendo, os mesmos edifícios vão sendo ocupados por parte de uma população pobre ou marginal ou de imigrantes. Criam-se assim bolsas de habitação com más condições, precárias, associadas  à pobreza, marginalidade e por vezes criminalidade.

            A saturação das infra-estruturas físicas (rede de esgotos, de distribuição de água) e sociais (serviços de saúde, administração, justiça) é outra forma de envelhecimento das cidades, contribuindo para a perda de qualidade de vida  em certas áreas urbanas.

            O Envelhecimento da população  acompanha o dos edifícios  e, na cidade, vão ficando sobretudo os mais velhos, pois as novas gerações adquirem geralmente habitações nas áreas suburbanas onde as casas são mais baratas. Este envelhecimento populacional  levanta problemas sociais de abandono e solidão.

            As deslocações pendulares, feitas a distâncias cada vez maiores, aumentam a sua duração, tal como o tempo que se  passa longe de casa, originando mais stress, fadiga, trânsito, preocupações com os horários (...). Nas cidades  e nas áreas suburbanas, são as crianças e adolescentes desde muito novos que  ficam entregues a si próprios durante o dia. Crescem muitas vezes sozinhos, sem  a presença de um adulto ( é a chamada “geração da chave”).

            A cidade  de hoje ainda que  se caracterize pela aglomeração de pessoas e de actividades, é um espaço onde as pessoas se cruzam, mas raramente se encontram, prevalecendo um anonimato difícil de quebrar, que se transforma em mais um factor de solidão, também ela uma característica do espaço urbano.

            Outros problemas inerentes à cidades são os Bairros pobres, que teimam em não desaparecer  apesar dos programas de realojamento, e o número crescente dos “sem abrigo” para o que muito contribui o desemprego prolongado. Este é particularmente problemático nas cidades, onde a sobrevivência das famílias depende totalmente do ordenado, inclusive para a habitação que, mesmo sendo própria, exige o pagamento das amortizações do empréstimo bancário.

               As situações de abandono e de pobreza, face visível das  desigualdades sociais presentes no espaço urbano, propiciam a criminalidade e, com ela, a insegurança dos cidadãos  que, por medo, muitas vezes não usufruem de espaços como jardins públicos, parques infantis ou de um simples passeio pelas ruas. Estes problemas, sobretudo o da falta de segurança, tem feito crescer nos cidadãos um sentimento anti - estrangeiro (Xenofobia) ou mesmo racial, que em nada favorece o sentido de uma política democrática.

            É pois importante a recuperação da qualidade de vida urbana, desde o centro da cidade à sua periferia, bem como a totalidade dos aspectos físicos e sociais. É  importante preservar o património edificado, reabilitando áreas degradadas ( de destacar o programa de reabilitação das áreas urbanas degradadas – PRAUD e o programa RECRIA – regime Especial de comparticipação na Recuperação de Imóveis Arrendados). É ainda necessário repensar o uso dos espaços, requalificando-os ou mesmo renovando algumas áreas urbanas, demolindo total ou parcialmente edifícios ou estruturas edificadas. A renovação urbana implica o realojamento da população a viver em edifícios ou bairros degradados, sendo aquele uma forma de combater a marginalidade, as situações de risco para os jovens, eliminando os espaços tradicionais para o consumo ilícito de drogas, para a prostituição  e outras actividades ilícitas ( como no conhecido Casal Ventoso).

            Trata-se pois de humanizar a cidade.

Para terminar, fica aqui um excerto de uma letra de Carlos Tê   a que Rui Veloso deu voz , numa clara alusão à sua cidade, o  Porto dos seus sentidos.

           

“Ver-te assim abandonado

            nesse timbre pardacento

         nesse teu jeito fechado

                 de quem mói um sentimento

              e é sempre a primeira vez

           em cada regresso a casa

       rever-te nessa altivez

              de milhafre ferido na asa”

 

publicado por cerqueira-paulo às 22:40
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2 comentários:
De anabela a 7 de Janeiro de 2009 às 00:37
É um problema gravíssimo que afecta grandes, médias e pequenas cidades. Amarante não escapou a este fenómeno.
De cerqueira-paulo a 8 de Janeiro de 2009 às 15:21
Ena, já aprendeste a fazer comentários no blog?:)
Eh Eh, vai aparecendo por cá

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